Benefícios do Ômega 3 – Entenda mais

Benefícios do Ômega 3 – Entenda mais

O interesse no estudo dos ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 (ω-3) aumentou nos últimos anos devido à descoberta de que o consumo deste tipo de gordura poderia estar relacionado a promoção da saúde e redução do risco de doenças. Dentre as classes de ω-3, duas tem papel de destaque na saúde humana: os ácidos eicosapentaenóico (EPA) e docosahexaenóico (DHA) . A relação entre o consumo de ω -3 e a melhoria em diversas doenças é numerosa, e o artigo a seguir tem como objetivo apresentar os potenciais benefícios a saúde que o consumo destes ácidos graxos pode oferecer, assim como listar as melhores fontes para uma ingestão adequada.

Quais os benefícios à saúde relatados na literatura?

Doenças cardiovasculares

Uma recente discussão vem sendo frequente com relação aos benefícios do ômega-3: Se haveria, de fato, impacto nas doenças cardiovasculares. Três meta análises (tipo de artigo científico que busca diversos outros artigos, analisa-os e procura uma conclusão com base nos resultados destes artigos) foram publicadas recentemente e os resultados foram controversos: Se em uma meta análise os autores concluíram que não haveriam motivos para continuar os estudos que relacionam ômega-3 e doenças cardiovasculares (AUNG et al, 2018), outras meta análises sugeriram que haveriam sim benefícios com a suplementação de ômega-3 neste contexto (ALEXANDER et al, 2017; MAKI et al, 2017). Após revisar todas as evidências que estavam disponíveis, a American Heart Association divulgou um comunicado de atualização com relação às orientações anteriores. O comunicado em questão afirma que apesar das recentes controversas, pacientes com doença cardíaca congênita tem a suplementação de ácidos graxos ômega-3 justificada, já que há uma redução de aproximadamente 10% em índices mortalidade por doenças cardiovasculares com a suplementação. Pacientes com insuficiência cardíaca (IC) também tem a suplementação de ômega-3 suportada pela ciência, ainda que seja por somente um grande estudo randomizado e controlado (SISCOVICK et al, 2017).

Um outro artigo publicado recentemente (LI, JIA, ZHU, 2019) discute a controvérsia destas evidências e conclui que as doses utilizadas nos trabalhos que refutam o ômega-3 como um potencial auxílio terapêutico nas doenças cardiovasculares são muito pequenas (<1g/dia); em contrapartida, nos artigos que apresentam dosagens maiores (4g/dia) houveram melhorias em aspectos de proteção cardiovascular. O artigo sugere que os próximos estudos sejam realizados com altas doses de ômega-3, uma vez que estas parecem ser de fato efetivas para efeitos terapêuticos. Os mecanismos anti-aterotrombóticos (aterotrombose é uma doença do sistema circulatório que tem como uma das manifestações o infarto do miocárdio, que faz parte do músculo cardíaco) do ômega-3 incluem reduções nos níveis de triglicerídeos, assim como aumento dos níveis de HDL-c (YANAI et al, 2018).

Resistência à insulina e Diabetes Mellitus do tipo II (DMII)

Uma revisão publicada em 2017 (GAO et al, 2017) demonstrou que indivíduos com algum tipo de distúrbio metabólico como valores anormais do índice de massa corpórea (IMC), hipertensão arterial sistêmica (HAS) e alterações no metabolismo lipídico podem se beneficiar com a suplementação de ácidos graxos ômega-3. Enquanto a suplementação não apresentou benefícios que dizem respeito a insulina em indivíduos sem quaisquer alterações metabólicas, aqueles que apresentaram tais alterações reduziram o risco de resistência à insulina em até 47%. A revisão ainda cita que de acordo com os mais recentes achados a melhor intervenção seria a curto prazo, com uma suplementação de ômega-3 que perduraria por 4 à 12 semanas. A resistência à insulina, cabe lembrar, ocorre quando há uma resposta diminuída às ações biológicas da insulina. Levando em consideração que uma das principais funções biológicas da insulina é ‘’captar’’ a glicose circulante e que a resistência à insulina fará com que esta glicose não seja captada de maneira efetiva da corrente sanguínea, o indivíduo que permanecer com quadros de resistência à insulina por longos períodos pode vir a tornar-se pré-diabético ou até mesmo diabético.

Doença de Alzheimer

Uma meta análise publicada em 2017 (CANHADA et al, 2017) analisou a efetividade da suplementação de ômega-3 em pacientes com Doença de Alzheimer (DA). Com as ressalvas de que as doses utilizadas tiveram grandes variações dentro dos estudos analisados (580mg/dia até 2,3g/dia de DHA/EPA), a suplementação de ômega-3 obteve melhorias significativas dentro da função cognitiva de pacientes com estágios iniciais da DA. Outro estudo (WANG et al, 2018) realizado em laboratórios com ratos demonstrou que a suplementação de ômega-3 reduziu a peroxidação lipídica (reação que gera radicais livres, que em excesso são prejudiciais ao organismo), apresentando um efeito protetor contra a DA nas células endoteliais do cérebro dos ratos presentes no estudo.

Memória

Outros cientistas analisaram também a possibilidade de melhoria na memória de adultos jovens e idosos considerados saudáveis. Um artigo publicado (MULDOON et al, 2010) demonstrou que níveis maiores de DHA séricos (presentes na corrente sanguínea) estão diretamente relacionados a melhor desempenho em raciocínios não verbais, memória lógica e memória de trabalho em adultos com idade de 30 a 54 anos (média de idade de aproximadamente 42 anos). Em adultos mais velhos (idades > 45 anos) também foram encontrados resultados positivos, como melhoria da memória semântica (memória de longo prazo), memória episódica verbal (experiências passadas relatadas), velocidade de processamento e recordações imediatas (YURKO-MAURO, ALEXANDER, ELSWYK, 2010).

Depressão e ansiedade

A ciência comprovou que indivíduos diagnosticados com transtornos de ansiedade e depressão apresentam níveis menores de ômega-3, assim como maiores quantidades de ômega-6 na proporção de ômegas 6:3 presentes no sangue e no cérebro quando comparados a indivíduos saudáveis com idade e sexo correspondentes (GREEN et al, 2006; PARLETTA et al, 2016).

Quando indivíduos com tais doenças foram submetidos a suplementação de ômega-3, os resultados apresentaram-se controversos; isto possivelmente é decorrente da metodologia utilizada pelos artigos, que varia com relação a quantidade e qualidade do ômega-3 utilizado, incluindo a proporção EPA:DHA, duração do ensaio, tipo do placebo utilizado e uso concomitante de outros medicamentos. No entanto, diversos artigos recentes vêm demonstrando um grande potencial na utilização de ômega-3 como auxílio terapêutico para estas doenças. A redução de sintomas depressivos foi encontrada em diversos trabalhos publicados, assim como a gravidade destes sintomas também foi reduzida, especialmente em pacientes que já apresentavam resistência a antidepressivos como fluoxetina e paroxetina. Estes achados são relevantes, uma vez que até 40% dos pacientes parecem apresentar resistência ao tratamento com antidepressivos (LARRIEU, LAYÉ, 2018). Para a prevenção de ansiedade, um estudo publicado verificou que a suplementação de 2.5g/dia de ômega-3 por 12 semanas em estudantes de medicina foi capaz de diminuir em 20% os sintomas de ansiedade (KIECOLT-CLASER et al, 2011).

Marcadores inflamatórios

Indivíduos saudáveis que receberam a suplementação de ômega-3 por 6 semanas a 5 meses não obtiveram resultados significativos em marcadores inflamatórios. Este resultado é esperado, uma vez que esta população apresenta naturalmente baixas concentrações plasmáticas destes marcadores. Em contrapartidas, em populações susceptíveis a alterações inflamatórias como mulheres obesas e idosos, a suplementação de ômega-3 reduziu marcadores inflamatórios endoteliais e sistêmicos, como TNF-α, IL-6, hsCRP, sVCAM-1 e sPECAM-1 (BUOITE STELLA, 2018). Melhorias de marcadores inflamatórios podem trazer diversos benefícios a saúde como prevenção de artrite reumatoide, doença arterial coronariana, inflamações musculares, diabetes tipo II, etc.

Onde encontrar boas fontes de ômega-3?

O conteúdo de ômega-3 presente nos peixes varia muito. Peixes gordurosos de água fria como salmão, cavala e sardinha contém grandes quantidades de ômega-3; já peixes com menor teor lipídico, como robalo, tilápia e bacalhau, contém níveis menores deste ácido graxo (COATES ET AL, 2010). Os peixes que moram em cativeiro costumam ter níveis mais elevados de EPA e DHA do que peixes capturados na natureza, uma vez que possuem as quantidades de ômega-3 ‘’controladas’’ pela alimentação; Porém, isso depende de quais rações/alimentos são fornecidos para estes peixes (MILLER, NICHOLS, CARTER, 2008). Um exemplo claro disso foi demonstrado quando pesquisadores avaliaram a composição de ácidos graxos presentes em peixes da espécie salmão atlântico criados numa fazenda da Escócia; entre 2006 e 2015 houve uma queda significativa nas quantidades de EPA e DHA devido a substituição dos ingredientes marinhos tradicionais da alimentação dos peixes por outros ingredientes. (SPRAGUE, DICK, TOCHER, 2016). O uso do suplemento alimentar, então, parece ser o mais confiável meio para consumo destes ácidos graxos, uma vez que há o controle da quantidade inserida em cada cápsula ou quaisquer outros meios de suplementação. No entanto, fique atento: Grande parte dos ‘’óleos de peixe’’ vendidos no mercado de suplementação não são compostos somente por ômega-3. Neste caso, sempre verifique as quantidades de EPA e DHA presentes nos suplementos, que indicarão a quantidade de ômega-3 ali presentes.

Com relação a alimentos de origem vegetal, alimentos como semente de linhaça, soja e a canola contém em sua composição o ácido alfa-linolênico (ALA), que serve como precursor para síntese de EPA e DHA no organismo humano. No entanto, a produção destes ácidos graxos a partir do ALA é limitado, na melhor das hipóteses, a taxas menores que 4%; portanto, a incorporação ‘’direta’’ dos ácidos EPA e DHA na dieta é importante (SHAHIDI, AMBIGAIPALAN, 2018; SANTOS et al, 2013).

Resumindo…

O consumo de ômega-3 pela população brasileira é insuficiente devido ao baixo consumo de peixes gordos, especialmente por aspectos culturais e financeiros. Uma alternativa para um consumo adequado de ômega-3 sem necessariamente consumir os peixes é através da suplementação destes ácidos graxos. Os benefícios no seu consumo são cientificamente comprovados, com benefícios que vão desde melhorias que envolvem doenças como DMII e doenças cardiovasculares até melhorias em aspectos cognitivos. Conclui-se assim que a suplementação de ômega-3 pode fazer parte da base de suplementos a serem utilizados, uma vez que apresenta diversos benefícios a saúde sem efeitos colaterais significativos.

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Referencias:

ALEXANDER, Dominik D. et al. A meta-analysis of randomized controlled trials and prospective cohort studies of eicosapentaenoic and docosahexaenoic long-chain omega-3 fatty acids and coronary heart disease risk. In: Mayo Clinic Proceedings. Elsevier, 2017. p. 15-29.

AUNG, Theingi et al. Associations of omega-3 fatty acid supplement use with cardiovascular disease risks: meta-analysis of 10 trials involving 77 917 individuals. JAMA cardiology, v. 3, n. 3, p. 225-233, 2018.

BUOITE STELLA, Alex et al. Update on the impact of omega 3 fatty acids on inflammation, insulin resistance and sarcopenia: a review. International journal of molecular sciences, v. 19, n. 1, p. 218, 2018.

CANHADA, Scheine et al. Omega-3 fatty acids’ supplementation in Alzheimer’s disease: A systematic review. Nutritional neuroscience, v. 21, n. 8, p. 529-538, 2018.
COATES, Paul M. et al.. Encyclopedia of dietary supplements. 2nd ed. London and New York: Informa Healthcare, 2010. 577-86.

GAO, Huanqing et al. Fish oil supplementation and insulin sensitivity: a systematic review and meta-analysis. Lipids in health and disease, v. 16, n. 1, p. 131, 2017.

GREEN, Pnina et al. Red cell membrane omega-3 fatty acids are decreased in nondepressed patients with social anxiety disorder. European Neuropsychopharmacology, v. 16, n. 2, p. 107-113, 2006.

KIECOLT-GLASER, Janice K. et al. Omega-3 supplementation lowers inflammation and anxiety in medical students: a randomized controlled trial. Brain, behavior, and immunity, v. 25, n. 8, p. 1725-1734, 2011.

LARRIEU, Thomas; LAYÉ, Sophie. Food for mood: relevance of nutritional omega-3 fatty acids for depression and anxiety. Frontiers in physiology, v. 9, p. 1047, 2018.

LI, Robert; JIA, Zhenquan; ZHU, Hong. Dietary Supplementation with Anti-Inflammatory Omega-3 Fatty Acids for Cardiovascular Protection: Help or Hoax?. Reactive oxygen species (Apex, NC), v. 7, n. 20, p. 78, 2019.

MAKI, Kevin C. et al. Use of supplemental long-chain omega-3 fatty acids and risk for cardiac death: An updated meta-analysis and review of research gaps. Journal of Clinical Lipidology, v. 11, n. 5, p. 1152-1160. e2, 2017.

MILLER, Matthew R.; NICHOLS, Peter D.; CARTER, Chris G. n-3 Oil sources for use in aquaculture–alternatives to the unsustainable harvest of wild fish. Nutrition research reviews, v. 21, n. 2, p. 85-96, 2008.

MULDOON, Matthew F. et al. Serum phospholipid docosahexaenonic acid is associated with cognitive functioning during middle adulthood. The Journal of nutrition, v. 140, n. 4, p. 848-853, 2010.

PARLETTA, Natalie et al. People with schizophrenia and depression have a low omega-3 index. Prostaglandins, Leukotrienes and Essential Fatty Acids, v. 110, p. 42-47, 2016.

SANTOS, Raul D. et al. I Diretriz sobre o consumo de gorduras e saúde cardiovascular. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 100, n. 1, p. 1-40, 2013.

SHAHIDI, Fereidoon; AMBIGAIPALAN, Priyatharini. Omega-3 polyunsaturated fatty acids and their health benefits. Annual review of food science and technology, v. 9, p. 345-381, 2018.

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SPRAGUE, Matthew; DICK, James R.; TOCHER, Douglas R. Impact of sustainable feeds on omega-3 long-chain fatty acid levels in farmed Atlantic salmon, 2006–2015. Scientific reports, v. 6, n. 1, p. 1-9, 2016.

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YANAI, Hidekatsu et al. An improvement of cardiovascular risk factors by omega-3 polyunsaturated fatty acids. Journal of clinical medicine research, v. 10, n. 4, p. 281, 2018.

YURKO-MAURO, Karin; ALEXANDER, Dominik D.; VAN ELSWYK, Mary E. Docosahexaenoic acid and adult memory: a systematic review and meta-analysis. PloS one, v. 10, n. 3, 2015.

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